Em Portugal, o funeral é o dia em que toda a gente aparece. A missa de sétimo dia é o dia em que aparece quem realmente ficou.
É uma celebração curta, sem cortejo, sem organização a fazer, e para muitas famílias é a primeira vez que se senta com calma desde que tudo aconteceu.
O calendário
- O funeral. Habitualmente vinte e quatro a quarenta e oito horas depois do falecimento.
- A missa de sétimo dia. Uma semana depois, ou no domingo seguinte.
- A missa de trigésimo dia. Ao fim de um mês. Menos praticada hoje do que há uma geração, mas ainda comum no interior.
- A missa de aniversário. Ao fim de um ano, e depois todos os anos, se a família quiser.
Nada disto é obrigatório. É costume, e o costume varia muito entre o Norte, o Alentejo e as ilhas. Numa paróquia rural, faltar à missa de sétimo dia repara-se; em Lisboa, muitas famílias já não a fazem.
Quem se avisa
Esta é a parte que corre mal, porque não há aviso público.
O funeral saiu no jornal e na porta da igreja. A missa de sétimo dia é marcada na secretaria e comunicada de boca em boca. Resultado: há sempre um primo, uma vizinha antiga, um colega de trabalho que fica a saber na semana seguinte e que se magoa.
Vale a pena fazer uma lista, mesmo mal feita, no dia do funeral — quem esteve, quem não pôde estar, quem mandou recado. E enviar uma mensagem única ao grupo todo, com o dia e a hora. Um minuto de trabalho evita uma mágoa de anos.
Quem está fora
Quase todas as famílias portuguesas têm alguém emigrado, e essa pessoa não volta duas vezes em sete dias.
Três coisas ajudam, e nenhuma exige nada de complicado. Avisar na mesma, mesmo sabendo que não pode vir — ser avisado e não poder ir é muito diferente de não ser avisado. Pedir a um familiar que mande duas ou três fotografias nesse dia. E deixar claro que pode mandar umas palavras para serem lidas ou simplesmente guardadas.
Quem está longe não precisa de estar presente. Precisa de não ficar de fora.
O que dizer a quem ficou
Nesse dia, a casa esvazia-se. E é a partir dali que o telefone deixa de tocar.
Se quer ser útil, não pergunte «precisas de alguma coisa» — ninguém responde a isso. Diga uma coisa concreta e cumpra-a: passar na quinta-feira, levar o jantar no sábado, telefonar ao domingo. E volte a aparecer daí a três meses, quando já não há missas marcadas e quando toda a gente presumiu que já passou.
O que fica
Na missa de sétimo dia juntam-se pessoas que conheceram a mesma pessoa de maneiras diferentes: o colega de trabalho de há trinta anos, o vizinho de infância, a sobrinha que ouviu as histórias em segunda mão.
É o melhor momento do ano para perguntar «e ele como era, afinal?» e apontar a resposta. Não na igreja — à mesa, depois. Uma gravação no telemóvel chega.
Daqui a dez anos, é isso que resta.


